25/04/2026 by marioregueira

Da Corunha

Quando finalmente saímos daquela casa, ficaram várias marcas retangulares na parede, ali onde tinham estado, durante mais de trinta anos, os meus pósteres de adolescência. Um deles era este, embora logo tenha sido acompanhado por outro mais recente, e até apareceu um novo de um conhecido guerrilheiro ao seu lado. Mas manteve-se porque servia para recordar de onde vinha a alegria; gostava de identificar na modéstia daquele plantel da subida as figuras que anos depois, e de forma completamente inesperada, conseguiram ganhar títulos e enfrentar clubes históricos do continente. Jugoslavos que viram o seu país desintegrar-se nesses mesmos anos, galegos de Ribeira saídos de campos de lama, bascos de nomes impossíveis. Muito antes dos brasileiros e dos internacionais, abrindo a porta a uma época inesquecível para o futebol galego. Uma equipa de baixo capaz de fazer tremer os de cima. A metáfora perfeita para um rapaz da periferia.

A minha paixão teve altos e baixos nos anos seguintes. Confesso que assisti com emoção à noite do penálti falhado e à tarde do primeiro título para o futebol galego. Também que a primeira liga me apanhou indiferente, apesar de ter brindado (desde a cafetaria de uma biblioteca em época de exames) no dia seguinte, aquele em que muitos dos meus colegas mal recuperavam de uma ressaca lendária. Voltei nos anos maus, porque estamos aqui para sofrer e porque estar com quem ganha é muito fácil e diria até um pouco medíocre. Também porque serve para lembrar aquilo que aprendemos contra o Aston Villa: que todo desprezo pela cultura popular não é mais do que um desprezo pela cultura das classes populares.

Não nego as contradições: esta foi a primeira equipa que ergueu a bandeira contemporânea da Galiza no seu escudo. Aquela em que jogou Bebel García, que aparecia nos sonhos de Eduardo Galeano e ainda aparece às vezes nos nossos. A que fazia o guerrilheiro Foucellas arriscar a vida para poder cantar os seus golos vestido de freira desde a bancada. A mesma em que Paul Heaton intuiu, como um vidente das periferias atlânticas, uma história cheia de lama e de glória redentora. Que o nome próprio e popular da Corunha continuasse ausente do escudo e do nome era um anacronismo, uma injustiça persistente contra os seus adeptos.

Um dia contaremos estas fendas a partir do olhar de Marco ou de Menino Morreu, dos jogadores LGBTQ, do futebol feminino, do antirracismo e das equipas de base, do ódio eterno ao futebol moderno. Mas nestes dias o adolescente que fui sai para celebrar esta vitória como se fosse um novo título. Talvez porque chega pelas mãos de outros adolescentes que hoje o são, da juventude de #aquitamensefala, à qual agradeceremos sempre por nos deixar pisar por uns segundos esse pedaço de relva onde jogaram de forma tão bonita.

Este sitio web emprega cookies para que vostede teña a mellor experiencia de usuario. Se continúa navegando está dando o seu consentimento para a aceptación das mencionadas cookies e a aceptación da nosa política de cookies, pinche na ligazón para máis información.plugin cookies

ACEPTAR
Aviso de cookies