31/05/2016 by marioregueira

A ressaca de Maio

Sirkuselefanter

Adaptada de Sirkuselefanter (1962), Municipal Archives of Throndheim. –CC BY 2.0

O mês mais cru não é Abril, senão Maio, que é o mês das Letras Galegas. Quando acaba de passar Maio as cidades ficam igual que quando acaba de passar o desfile de um circo com elefantes e majorettes dessas que fazem malabarismos com o pau da bandeira. O chão está estrado de poemas de Manuel María e dos artigos e publicações que se lhe dedicaram e uma sensação de ressaca invade a cidade. Ao menos não foi como o ano passado no que uma fera perigosa escapou de mãos dos domadores e criou o pânico na cidade entre os mais, ainda que se deixasse acariciar por alguns. Porém, como todos os anos, e ainda que não possamos nos abstrair de todo do desfile que toma as ruas, perguntámos-nos se realmente vale a pena. De verdade é isto o que convém à cultura galega, à difusão da sua literatura, aos próprios homenageados? (usamos o masculino porque são 52 homens e só três mulheres). Não será hora de reservar as ruas da cidade para passeiar, incorporar varões entre as majorettes, mulheres entre os domadores e mandar os elefantes pastar?

O dia das Letras Galegas foi uma festividade criada contra o franquismo. Não durante a guerra, senão bem mais tarde, a começos dos anos sessenta, quando a gente de Galaxia começava a deixar atrás a fantasma da perseguição política e ia entrando em instituições como a Real Academia Galega. A conversão da Academia de elemento folclórico franquista numa ferramenta de difusão da cultura galega é algo que se lhes deve, ainda que não se pode negar que isso implicava um certo diálogo com o franquismo, um papel de mediação que Galaxia abraçou sem muitos traumas, chegando a se enfrontar com organizações que exerciam a oposição directa a este. As Letras Galegas nascem dessa mediação, criadas em 1963 e dedicadas a Rosalia de Castro, um ano depois permitiam celebrar a Castelao com a permissão do regime. Não ao Castelao político, claro, mas havia algo inegavelmente político em dedicar-lhe uma festividade ao maior representante do Partido Galeguista, ainda que fosse como humorista ou literato. Que o franquismo tolerasse esse tipo de homenagem facilitou também que Castelao pudesse ser reeditado, ainda que com um enorme controlo sobre o tipo de escritos que podiam ver a luz. Sem as Letras Galegas nada disso seria possível, ainda que também é certo que a atitude de submetimento às directrizes da ditadura não beneficiou muito ao galeguismo e sem dúvida facilitou a futura fagotização e manipulação de Castelao por parte da direita espanholista.

Lion.Medrano.Tamer, adaptada do usuário de Flickr felicito rustique, jr. –CC BY 2.0

Desde então o Dia das Letras tem-se celebrado sem interrupção e com poucas ou nenhuma modificação. As regras arbitrárias seguem em pé, o protagonismo da Academia não se modificou um ápice e a transição daqueles tempos duros a estes tempos duros não foi demasiado boa. Não só pelas questões referentes às escolhas da Academia ou ao desleixo a respeito de questões como o género, inherentes à própria instituição. Uma festa que nasce com um valor simbólico tão marcado e associado ao resistencialismo não volta ser a mesma fora dessas coordenadas. Ainda assim, a dependência dos ritmos culturais galegos de dezassete de Maio é excessiva. O chão da cidade está cheio de poemas de Manuel María, e é provável que nunca mais voltemos vê-lo assim. A quantidade de publicações e a difusão do autor esquecer-se-ão em seguida, e também não é que haja muita margem para fazer uma crítica objectiva da sua obra no meio de uma celebração como esta, onda cada vez ganham mais espaço as frivolidades publicitárias encarnadas em bolsas de supermercado. Por outra parte acho que o esforço editorial galego poderia estar melhor empregue que em tirar cinco biografias e três antologias do mesmo autor num prazo de meses. Um autor ao que será difícil voltar dedicar-lhe uma monografia nos próximos anos e que nunca desfrutará de um estudo como o do presente, pois nem sequer gigantes literários como a própria Rosalía de Castro podem repetir homenagem no Dia das Letras. Nunca haverá outro Castelao, mas é que a função de 17 de Maio já não devera ser a de erguer um totem simbólico que por um dia faça pensar que existimos mesmo baixo o abafo de uma ditadura.

É certo que não é a única instituição estranha que há na Europa. Quando penso que Gales e Escócia têm um cargo chamado poeta nacional que se dá em vida alivia-me pensar que nunca veremos essa tragédia na nossa cultura, onde a gente é capaz montar dramas por um posto na Academia ou por dizer tira-me daí essa feira do livro. Em qualquer caso, neste momento de Maio, enquanto as bolsas que homenageiam aos nossos autores começam a ser recicladas como bolsas do lixo, a ressaca de uma festa selvagem martela na cabeça e faz-nos desejar que algum dia os elefantes arrasem con tudo em desbandada e as majorettes se façam donas da cidade.

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Seminoles, do usuário de Flickr Prayitno –CC BY 2.0

#Letras Galegas#Literatura

30/03/2016 by marioregueira

Guerras e galáxias

Desde a sua defesa, em janeiro de 2016, alguns meios de comunicação fizeram-se eco da minha tese de doutoramento A narrativa na reconstrución do campo literario de posguerra. Repertorios e imaxinario nacional no proxecto de Galaxia. Quero destacar, dentro destas contribuções, as entrevistas que me fizeram Ana Romaní, para o Diario Cultural da Radio Galega e María Obelleiro para o semanário Sermos Galiza, esta última aparecida a passada segunda feira. Não é fácil resumir quase setecentas páginas nuns minutos de conversa ou numas quantas perguntas, e considero o facto de que ambas conseguissem tocar alguns dos pontos de maior interesse dum trabalho tão longo, un mérito de ambas jornalistas.

A entrevista de Ana Romaní pode escuitar-se aqui [Galego] e a de María Obelleiro pode ler-se nesta ligação [Galego].

entrevista SG

#Crítica#Edición#Editorial Galaxia#Franquismo#Guerra Civil española#Literatura#Prensa

27/03/2016 by marioregueira

Racimos e maçãs

Los ritos de los sentidos

Soy el damasceno y sim abrieran mi cuerpo / brotarían de dentro racimos y manzanas. (Sou o damasceno e se abrissem o meu corpo / brotariam de dentro racimos e maçãs.) Poucos versos poderiam definir melhor o espírito de Los ritos de los sentidos que estes do poeta sírio Nizar Qabbani, um dos grandes nomes da poesia árabe e que não poderia faltar em nenhuma das suas antologias. O volume que nos oferece a equipa formada por Jaouad Elouafi, Bahi Takkouche, Manuela Palacios e Arturo Casas caracteriza-se por não fugir de elementos que em ocasiões poderiam ser tomados como lugares comuns com un certo ressaibo orientalista. A cultura árabe como um transbordamento da sensualidade, como uma fonte de evocação cheia de aromas a fruta e especiarias e onde as paixões correm descontroladas, é apresentada em muitos dos poemas do livro sem maiores complexos. Sem dúvida o intuito editorial acompanha esta perspectiva, e por isso Los ritos de los sentidos é um volume de grande tamanho, retangular e enormemente vistoso que conta ademais com a arte caligráfica de Hachemi Mokrane como um elemento que compete em protagonismo com as próprias transcrições convencionais dos versos e as suas letras de forma latinas ou árabes.

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E porém, como não poderia ser de outo modo num trabalho que conta com a participação de pessoas como Manuela Palacios e Arturo Casas, a perspectiva é bem mais ampla e os próprios sentidos, com a sua sensualidade adjacente, encontram também motivos para o discurso diverso e as possibilidades subversivas. Assim, surpreende o marco temporário amplo, no que a poesia sufista dentre os séculos VIII e XIII convive com poetas do século XX e da actualidade. Também o facto de que na primeira se inclua uma mulher, Rábi’a Al-Adawiya, não por acaso uma figura que serve de ponte entre a filosofia mística e os primeiros questionamentos sobre o rol da mulher na sociedade. Se calhar Al-Adawiya seja a primeira de uma corrente de poesia feminina continuada por outras autoras contemporâneas presentes no livro, como a saudita Fawziya Abu-Jálid, capaz de selar a paz nos seus versos entre as serpes edénicas e as mulheres. Ao lado desta perspectiva, Los ritos de los sentidos recolhe também o seu próprio inventário do exílio. Os conflitos nacionais e a dor da separação vibram na simples menção de nomes como o do palestiniano Mahmud Darwish, mas também nos versos do curdo Buland Al-Haidari ou do iraquiano Ahmad Matar. Diversidades que também são geográficas e marcam o continuum cultural entre as terras mais afastadas do Oriente e o próximo Magreb.

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Um volume que responde à evocação e ao estímulo visual que muitas pessoas procurarão nas suas páginas, mas que também tem a grande virtude de conter tanta diversidade e miradas alternativas como para fazer rebentar as suas costuras. Sem dúvida delas brotarão racimos e maçãs, também paixões que rebelam as entranhas das amantes contra sim próprias e o constante amor à identidade que, como canta Qabbani pode resumir-se na sua singeleza: Aqui están mis raíces, aqui mi corazón, aqui mi lengua / ¿debo hablar más claro? ¿acaso necesita el amor explicación? (Aqui estão minhas raízes, aqui meu coração, aqui minha língua / devo falar mais claro? e que precisa o amor explicação?)

#Crítica#Literatura#Poesía árabe

20/03/2016 by marioregueira

O blues, o jazz e a bossa nova

06/03/2016 by marioregueira

Mocinhos a brincar (na Rua Álvaro Cunqueiro)

Mocinhos com pistolas de xoguete - Adaptada da orixinal de Sascha Kohlmann - CC BY-SA 2.0

Mocinhos con pistolas de plástico – Adaptada da original de Sascha Kohlmann – CC BY-SA 2.0

Não quero dar-lhe uma fama que seguramente não procura nem merece, assim que não sei se chamá-lo Pazos ou Pazolo. Ou se calhar seja melhor Mocinho que, segundo escutei há anos, é a forma patrimonial que o galego tinha para “pajem”. Mocinho abriu um blogue há anos. Foi numa plataforma francesa, seguramente por diferenciar-se, porque gostava ou porque é em francês que se inventou uma palavra tão versátil como boutade. Reconheço que, se a proposta literária de Mocinho me interessou entre pouco e nada, o blogue inclinou-se perigosamente para o nada já nos tempos gloriosos do blogomilho, essa cidade fantasma de hoje.

Há que reconhecer-lhe ao blogue de Mocinho, porém, uma agilidade no estilo tão jornalística como aborrecida e também uma persistência admirável. O seu blogue leva anos fossilizado no meu leitor de feeds porque sempre me deu preguiça cancelar subscrições. Há dias, mesmo semanas, que representa a única entrada da sua categoria. Há de ser esse o motivo que ainda o leia de vez em quando. Hoje, coisa rara nele, Mocinho abria um desses confusos artigos com cinquenta referências inconexas em negrito. E citava-me. É dizer, que eu era a primeira referência de um caminhar que, como habitualmente acontece com os seus artigos, avançava para a nada e para conclusões irrelevantes enquanto a sua prosa bracejava dando punhadas inconexas ao ar.

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O rei da magia – Adaptada da original de Saúl Rivas – CC BY-NC-SA 2.0

Não quero dar-lhe mais importância da que tem, a fim de contas, não é a primeira vez que Mocinho se preocupa por mim num tom similar e nunca me incomodei em contestar-lhe por aquilo de não alimentar o troll e tal. Porém, é certo que as suas referências, por mais superficiais, sim que tocam uma parte do pequeno debate que, em redes sociais e nos bares de Compostela, tive com várias pessoas achegadas sobre Álvaro Cunqueiro. Duas delas, não por acaso, mindonienses e queridos amigos, ainda que não só. O debate de Cunqueiro saiu em muitas conversas e acho que é um bom sinal. Ao menos para mim é um bom sinal ver como uma das perguntas que se formulou há um mês e meio na defesa da minha tese voltava aparecer em contextos muitos mais distendidos. Era Cunqueiro franquista? Foi-o toda a sua vida?

Não fixem uma tese específica sobre o autor do Merlin e família, mas no contexto da literatura de posguerra é evidente que teve um peso fundamental no meu trabalho. As coisas que citei na entrada de há quinze dias não eram histórias de bar, nem suposições, senão declarações recolhidas de entrevistas e artigos do autor. Poderia referenda-las com bibliografia se não ficasse farto de malhar bibliografia este ano e se não achasse que pôr bibliografia num artigo para um blogue é uma verdadeira pedantaria. Também não têm um valor individual, parte do meu trabalho aborda o facto de que as suas noções filosóficas, a compreensão do oficio de escritor, assim como o sentido de algumas obras, acoplam com uma certa coerência com essa perspetiva reacionária, especialmente no tratamento de certos elementos étnico-identitários. Evidentemente, pode-se também aludir ao contexto do Cunqueiro ilusionista, que inventa e exagera enquanto fala e ao que não se pode tomar muito a sério. O velho debate sobre o humor. Acho que podes fazer piadas sem importância sobre antipáticos comunistas, mesmo podes fazê-las depois de colaborar com a maquinaria que protagonizou a sua perseguição e assassinato. Mas tens que perceber que a muita gente não lhe façam maldita graça. Haver de ser o tipo de humor que os bufões fazem ecoar dentro dos paços, um humor ao que nunca lhe acabei de apanhar o ponto e que penso que define mais que qualquer ideologia. Por muito menos das piadas que alguns mocinhos lhe riram a Cunqueiro, os filhos da Grã-Bretanha defenestraram no seu dia o poeta Philip Larkin.

Casa de Rimbaud en Harar - Adaptada da orixinal da usuaria de Flickr Beth - CC BY-NC 2.0

Casa de Rimbaud em Harar – Adaptada da original da usuária de Flickr Beth – CC BY-NC 2.0

Naturalmente haveria muito que matizar e resulta muito interessante a potência de interpretação da obra de Cunqueiro. Não vou entrar no tema porque aspiro a publicar uma versão da tese e porque o conto é muito comprido. Porém, não posso deixar de destacar até que ponto reações como as de Mocinho vêm dar-me, indiretamente, a razão em alguns dos meus postulados. O problema não é que Cunqueiro fosse reacionário, senão a impossibilidade geral de aceitar que houve galeguistas reacionários e que o foram antes, durante e depois do franquismo. Cunqueiro foi um escritor fundamental para a nossa literatura. E um fascista. Nenhum dos dois factos anula necessariamente o outro. O resto é seguir interpretando a história como compartimentos separados ou como uma questão simplesmente tribal. Questões de autonomia, que diria o bearnês. Eu para ser escritor galego não preciso defender a Cunqueiro no indefensável nem atacá-lo no literário. Não preciso fazer de pajem em nenhuma corte.

Finalmente, quero dizer que é necessária uma muito limitada capacidade de compreensão leitora para afirmar que eu defendo no meu artigo que lhe retirem a rua a Cunqueiro. É algo que nem me vai nem me vem, ainda que sim considero que o facto de que metade da gente da cultura saia defendendo o mindoniense como se fosse sua mãe parte da mesma dinâmica maniquea e simplista da que falava antes. O caso de Cunqueiro é como o de Borges no Chile de Pinochet ou o de Rimbaud em Harar traficando com escravos. Como o anti-semitismo de Richard Wagner que, porém, lutou nas revoluções de extrema esquerda do seu tempo e foi perseguido por isso. Contradições que os mocinhos de hoje não dão aceitado porque necessitam uma história mastigada e singela com a que encher os seus artigos de prosa ágil e caminhar incerto. Como já leram as pessoas que sabem ler, para mim formula um debate para o que não tenho uma resposta clara, ainda que não me escandalizaria se lhe tiram uma honra cidadã a quem nunca se arrependeu de ser tão mal cidadão. Se calhar haja que definir claramente que tipo de honra é que te dêem uma rua numa cidade como Madrid. Ou que tipo de honra é que te defendam com alguns argumentos.

#Álvaro Cunqueiro#Fascismo#Literatura

14/01/2016 by marioregueira

Os melhores livros (galegos) de 2015

As listas de “melhores livros são o que são: pessoais, incompletas, e forçosamente subjectivas. Apesar disso, a minha decisão de participar nelas vem dada porque acho que alguma utilidade seguem a ter, ainda que seja para ajudar a outras pessoas a escolher um livro ou a não escolhê-lo em absoluto. O primeiro que devêramos clarificar é que, por sorte, é impossível ler toda a produção anual em língua galega. E eu não o fixem, mas é certo que, mesmo num ano com tão pouco tempo para a leitura recreativa como foi este 2015, dei conta de uma parte importante dela. E dos livros que li eu destacaria três. Se calhar os melhores. Se calhar não. Se tendes que ler só três livros editados em 2015, eu recomendaria que lêreis estes. E se tivéreis que levar três livros a uma ilha deserta… Eu recomendar-vos-ia que não leveis livros a uma ilha deserta. Levai uma cana de pescar. Ou uma zodiac para poder voltar.

Detalle da portada de Cabalos e lobos

Cabalos e lobos, de Fran P. Lorenzo (Edicións Xerais).

Não só o que considero o melhor romance deste ano, senão também um das mais destacados do último lustro da literatura galega. Com uma ambientación viguesa que supera a vigo-exploitation que começa a campar nas nossas letras e resgata as verdadeiras entranhas da cidade, a sua memória operária e combatente, a suas histórias privadas, as vezes tão importantes como essa história colectiva, ou ao menos assim consegue o autor que as vejamos. Uma obra com um início espectacular e um ritmo absolutamente invejável que consegue mergulhar o lector numa história na que o passo das guerras e da repressão franquista oculta um passado familiar que iremos descobrindo pouco a pouco.

Seique, de Susana Sánchez Arins (Através)

Confesso que cada vez me custa mais entusiasmar com a poesia. E pode que o melhor exemplo é que, de todos os livros do género, escolha Seique, que não é poesia, ainda que também não é exactamente narrativa breve e definitivamente não é um romance. Finjamos que é poesia por estar escrito por uma poeta ou porque as coisas que não sabemos qualificar nessa fluência dos géneros literários são quase sempre poesia. Seique aborda as questões da memória e do legado da guerra civil espanhola duma forma completamente inovadora para a literatura galega. Tomando como ponto de partida a participação de um dos seus familiares na repressão franquista, a autora consegue evocar essa complexa posição e falar da dificuldade de construir narrativas sobre o trauma e da relação entre a violência intra-familiar e a violência política, se calhar duas caras da mesma moeda.

Marxes e centros

Marxes e centros. Para unha socioloxía do campo cultural, de Antón Figueroa (Laiovento).

Um amigo dizia-me há pouco que, se eu era bourdieano, era por ser previamente, e de forma bem mais intensa, figueroano. Tem parte de razão e nunca neguei que Antón Figueroa foi um dos mestres mais excepcionais que tive a fortuna de encontrar na minha trajectória académica. Este livro recopila uma parte importante dos seus artigos dos últimos anos, a maior parte deles referidos coerentemente a uma perspectiva sociológica sobre o desenvolvimento das culturas, e especificamente de culturas periféricas ou subalternas como a galega. Porém, o volume também é interessante por contar com uma entrevista final realizada pelos editores ao autor e que, pelas poucas vezes que Figueroa tem falado de sim próprio nestes anos, resulta uma alfaia que ajuda também a conhecer melhor uma das mentes mais preclaras que têm dado os estudos literários galegos.

#2015#Antón Figueroa#Através#ensaio#Fran P. Lorenzo#Laiovento#Libros#Literatura#narrativa#poesía#Susana Sánchez Arins#Xerais

28/06/2015 by marioregueira

Jogos de imitações

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No meu livro O Silencio, no meio de todos os poemas de guerra, há um dedicado a Alan Turing, “a pessoa que ganhou a II Guerra Mundial”, como me refiro a ele quando tenho que recitá-lo. A cara de incredulidade do público vai-se atenuando conforme passam os anos. Turing é um desses heróis recentes. Ainda que a parte heroica do seu trabalho se remonte aos anos quarenta, tardamos muito em conhecê-lo, e tardou bem mais em chegar ao grande público. Durante décadas, Turing era a pessoa que dera nome ao teste de Turing, um matemático que estudara as possibilidades da inteligência artificial e que morrera em estranhas circunstâncias na década dos cinquenta. Pouca gente sabia a dimensão bélica do seu trabalho nem o facto de que a mesma sociedade à que salvara da destruição o condenara à castração química pelo feito de ser homossexual. A sua história, mesmo depois de ser desclassificada, permaneceu no limbo dos círculos de aficionados.

O acontecido com Turing é parte do acontecido com outras figuras e faz parte da ideologia social imperante. Não só com as pessoas suspeitas de fugir da heterossexualidade normativa, também com as mulheres. As pessoas de determinada idade abríamos os olhos ante a possibilidade de que a filha de Lord Byron, Ada Lovelace, fosse considerada a primeira programadora de computadoras da história ou que a actriz Hedy Lamarr fosse a inventora, também durante a guerra, da tecnologia WiFi. Também assombrava saber que a rádio não fora inventada pelo Marconi que nos disseram no colégio, senão por um tal Nikola Tesla, uma personagem caracterizada também pela sua ambiguidade sexual.

Penso que é a sociedade das comunicações dos últimos vinte anos a que propiciou que muitas dessas pessoas possam ser recuperadas. Recuperadas para o grande público, naturalmente. Figuras como Nikola Tesla faziam parte da cultura popular, apareceram na literatura e no cinema de ficção científica e em géneros considerados subalternos como a banda desenhada (entre outras coisas, como estrafalário herói Marvel). Algo semelhante aconteceu também com Turing, cuja presença como personagem de ficção é cada vez mais frequente e joga um papel importante em obras como Cryptonomicon de Neal Stephenson, novamente num género subalterno onde não se oculta a importância da opção sexual da personagem.

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As coisas mudam quando é grande indústria a que redescobre e trata de tirar vantagem da popularidade crescente destas figuras às que ignorou durante anos. O ano passado estreava-se The Imitation Game, o primeiro filme dedicado à proeza que supôs o deciframento das máquinas Enigma. O filme resulta interessante e faz alguma justiça a figuras que novamente poderiam ser condenadas ao esquecimento, como o corpo de mulheres que participaram também no que foi uma façanha matemática de guerra. O mais interessante porém era ver como a indústria cinematográfica digeria uma figura como a de Alan Turing e a questão da sua sexualidade. Sempre há uma distorção entre os biografados e as biografias. Lawrence de Arábia nunca foi tão bonito e Mozart nunca foi o génio histriónico de Amadeus (nem Salieri tratou nunca de assassiná-lo). Ainda aceitando isto, não deixa de ser chocante que o Turing do filme seja uma espécie de reencarnação de Sheldon Cooper, uma figura rígida, insegura e atada a essa espécie de superioridade intelectual despótica que só manifestam os medíocres. Muitas pessoas perguntavam se Turing, ao igual que o protagonista de The Big Bang Theory padecia síndrome de Asperger.

A distorção no filme é inseparável, à minha forma de ver, da falta de referentes para representar uma personagem homossexual que não passem pelo histrionismo ou apoucamento. O Turing real era tímido e arrastava, desde a infância, problemas de socialização. Mas também era um excelente colega, com sentido do humor e uma atitude ante a vida que não representava fissuras no modelo de masculinidade imperante naquela época. Seguramente também não as representaria no modelo atual, ao menos no que maneja a indústria cinematográfica. De alguma forma havia que destacar a homossexualidade de Turing no filme, e apresentar uma cena de sexo (como acontece no romance de Stephenson), não era uma opção. De facto, há quem sustém que foi a sua atitude desafiante ante as forças da ordem a que provocou o processo por indecência contra ele. Nada que ver com o histérico que interpreta Benedict Cumberbatch. Por outra parte, também haveria muito que dizer ao respeito da figura de Keira Knightley, e o seu papel como mulher excepcional no meio de um grupo de homens, um rol que invisibiliza as muitas outras mulheres que participaram ao mesmo nível no decifrado e que sofreram um esquecimento similar ao que sofreu Turing.

Penso seriamente que algum dia se analisara The Imitation Game dentro desta chave, e que não será a última dificuldade da indústria à hora de representar os heróis e heroínas populares do século XXI, esses que estavam ocultos até que uma comunidade interconectada os revelou. Pela minha parte penso que seguirei preferindo o Turing abertamente gay de Stephenson, a Ada Lovelace de Cris Pavón (seduzida por uma vampira lésbica), e até o Nikola Tesla ahistórico interpretado por David Bowie em The Prestige. Os seus erros são outros, mas ao menos não têm nada que ver com os tópicos e limitações que hoje imperam.

Twain e Tesla

Mark Twain no laboratório da Tesla, jogafndo a ser super-herói.

#Ada Lovelace#Alan Turing#Cinema#Literatura#Nikola Tesa

17/05/2015 by marioregueira

Requiem Galego 2015

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Há um conto do velho Borges do ano 49 intitulado “Deutsches Requiem”. Nele, um ex-combatente alemão, enumera, pouco antes da sua execução, os motivos que o levaram a apoiar o nazismo na Alemanha. Numa interpretação mística que não foi alheia a todo o fenômeno ideológico da época, o protagonista conclui que a derrota da Alemanha é em realidade uma vitória sobre o mundo. Alemanha apareceu para impor a espada e a barbárie e fazer recuar os valores cristãos. Mesmo derrotada, obrigou ao resto de Ocidente a empreender uma luta épica e crepuscular, dando início assim a uma nova era. O seu sacrifício é um preço pequeno pelo objectivo, que não seria outro que salvar a civilização da decadência.

Se a derrota da Alemanha dava para fazer cábalas sobre uma vitória oculta, bem mais se poderia dizer do franquismo, nunca abaixado pelo poder da espada. A vitória do franquismo foi saber mimetizar-se, acompanhar como um fantasma perene o espírito da Transición, voltar ciclicamente desde as urnas ou as associações ultra católicas, seguir ecoando desde os tétricos antros onde se seguiu e se segue a praticar a tortura (300 casos dos que a O.N.U. diz que o Estado espanhol se nega a informar).

Não foi algo muito diferente do que o regime fez em vida. Os rapazolas que vitoriavam a aviação germana ou a italiana preconizavam que Franco sairia de Hendaia disposto a atirá-los contra o resto do mundo, se calhar dispostos a uma luta épica e crepuscular que habitou para sempre nos sonhos do falangismo romântico. Mas Franco soube ir vestindo os diferentes fatos de camaleão, e em pouco mais de uma década passava de possível e entusiasta aliado do nazismo a aliado de facto dos Estados Unidos contra a ameaça comunista. E de aí a entrar na UNESCO, abrir o país ao turismo, e normalizar entre aspas a sua situação com a comunidade internacional, sem por isso deixar de reprimir e assassinar à população. Alguns biógrafos não perdem a oportunidade de pôr o toque xenófobo e ressaltar que Franco era galego e que por isso ninguém sabia se subia ou se baixava.

Vendo o documentário de Gonzalo Veloso Contextualizando a Filgueira Valverde dá nas vistas como alguns dos convidados destacam algo muito parecido no polígrafo pontevedrés. Filgueira esteve sempre onde “tinha que estar”: foi independentista quando correspondia, nacionalista quando correspondia, franquista quando correspondia, aperturista depois e finalmente democrata de toda a vida ou, se nos guiamos por recentes declarações de Alonso Montero, mesmo agente oculto do galeguismo entregado a uma (muito paciente e demorada) erosão do franquismo.

Filgueira Valverde poderia passar à história das nossas letras como um erudito que traiu uma causa. Ninguém disputa o de erudito, mas parece haver muitas pessoas e instituições dispostas a passar por alto o segundo. A primeira, a Real Academia Galega, para quem não pesaram o suficiente todas as opiniões em contra. Em realidade, não surpreende demasiado, a Real Academia Galega e Filgueira Valverde são produtos de um processo similar. O primeiro desfez-se do fardo da sua ideologia quando foi um obstáculo para a sua sobrevivência. A Real Academia Galega também se desfez de parte do seu passado para ser, durante os primeiros anos da posguerra, uma resignada instituição com um cheirinho folclórico. Teve que renunciar ao galego nas suas manifestações públicas e aceitou, como académico de honra, ao grande genocida da sua própria cultura, o general Francisco Franco, se calhar com o mesmo gesto com o que Filgueira o recebia nas suas visitas a Pontevedra. Dizia Francisco Castro estes dias que não havia que ter medo de dizer que Filgueira fora galeguista e franquista. É óbvio que o significado de galeguismo não é o mesmo para todo mundo, mas também é evidente que, na interpretação de Francisco Castro, também a Academia deveu ser galeguista e franquista, ao menos até 2009. Até esse ano (presidência de Méndez Ferrín) ninguém se lembrou de retirar ao monstro ferrolão um título que ainda mantêm outros galegos de méritos bem discutíveis na sua defesa da língua. Se calhar o próprio Francisco Franco, de quem se rumoreja que falava em galego na intimidade do Azor com o fotógrafo Manuel Ferrol e que reconhecia “gostar” do nosso hino, fosse também um pouco galeguista além de franquista. Quem sabe o que depara o futuro da Academia, ao melhor ainda há espaço para assombros e podemos ver Dias das Letras que nos deixem atónitos.

Filgueira Valverde. Um faro na construção da Galiza. (culturagalega.gal)

Porém, o problema da instituição não se limita só a esse peso do franquismo. O camaleão tem fatos para todo, e os seus próprios movimentos de “reconquista” estiveram marcados por dinâmicas peculiares. Carvalho Calero e Francisco Fernández del Riego, avançada útil do grupo de Galaxia, vão recorrer de seguida à constituição de uma “família”, um grupo de pressão próprio que vá fazendo “entrismo” paulatino para acabar por controlar a Academia. Eram as estratégias da época, mas elas também representam o triunfo do franquismo e as suas políticas de famílias e correligionários, tendentes a um sectarismo que entrou na Academia de forma bem mais estável que o que marcam os ritmos históricos. O franquismo, como o nazismo do conto de Borges, triunfou. Obrigou a toda a sociedade a mirar-se de soslaio, a ver inimigos em cada esquina, a vestir fatos para cada ocasião, a procurar contactos e influências para poder conseguir as coisas às que deveram aceder por mérito ou direito. Quem se mexe não aparece na foto, se calhar por isso, numa Academia com nomes pouco suspeitos de conivência com o que representa Filgueira Valverde, (quase) ninguém se mexeu.

Não há que ser um erudito como o homenageado para saber, a estas alturas do século XXI, que existiu uma política de consentimento e colaboração de determinados sectores do franquismo com o galeguismo resistente. A própria Academia sobreviveu a ditadura porque a ditadura nunca a considerou um perigo, muitos dos seus membros sobreviveram porque tiveram padrinhos bem relacionados com o regime, o próprio Filgueira Valverde entre eles. A Academia desculpa o medo de Filgueira porque com ele acredita que queda desculpado também o seu próprio medo. Essas acções vão muito além dos poemas que Alonso Montero tanto gostou de expurgar, são menos contigentes e menos literárias, mas no nome delas criaram-se dinâmicas que nos acompanham até agora, como o espectro que ronda o espírito da chamada “transição política”. No nome de muitas dessas dinâmicas perdemos o país e estamos perdendo a língua. Uma amostra da madureza das nossas instituições culturais seria apostar por uma óptica ampla, abrir o debate, promover uma análise que enfoque a questão sem ambages e sem jogar a criar imagens patéticas, como a do homem que chora a sua covardia quando se lembra de que não foi falar no julgamento de Bóveda e a quem nós temos que celebrar este dezassete de Maio. Sem criar santinhos aos que, por um ano, levar bíblias acabadas de imprimir e velas, e dos que, como se faz nos enterros, está proibido falar mal em voz alta.

Se calhar a própria concepção da festa e as suas regras absurdas convide a isso. O carácter do Dia das Letras, a sua coincidência no espaço-tempo com familiares e testemunhas, foi útil baixo a ditadura, mas também o arrastamos até um tempo no já que não resulta uma ferramenta, mas um lastro. O que se avança em conhecimento de um autor perde-se no elogio imposto, a objectividade não tem cabida quando a missão é criar uma afirmação entusiasta e um ambiente de celebração, e a crítica é silenciada desde as instâncias mais altas. Se calhar sejam horas, mais do que nunca, de reformular como é que se vai continuar a  fazer as coisas, abrir as janelas e impedir que esses herdeiros de outro tempo, com os seus fatos camaleónicos, sigam reproduzindo-se sobre um palco do século passado. O mesmo no que não se contesta a ausência de figuras femininas por precaução e respeito. O mesmo onde o debate normativo não tem cabida nem baixo a figura de um antigo membro, mas sim cabem genocidas em postos de honra. O mesmo que se justifica orgulhoso no seu próprio nepotismo. O mesmo no que trair camaradas de militância é “o que corresponde” porque estamos familiarizados até a náusea com a linguagem de um medo que tem quase um século de história.

Joan Fuster dizia que o mais repulsivo dos povos dominadores é que impõem aos seus dominados o espectáculo da sua mediocridade sem remédio. No caso do franquismo, e no caso concreto do nosso malfadado país, haveria que somar-lhe o contágio dessa mesma mediocridade, o triunfo do mimetismo e da conveniência, a vitória quotidiana dos generais mortos, tantos anos depois, o réquiem inacabável do povo galego.

Filgueira Filoloxía

Cartaces da Xunta de Galicia contextualizados espontaneamente.

#Día das Letras Galegas#Filgueira Valverde#Jorge Luis Borges#Literatura

29/04/2015 by marioregueira

A tumba de Leiras

Leiras

Monumento em Mondonhedo

Participei o ano passado na primeira edição de “Mondoñedo é poesia”, uma aposta por encher de versos as ruas da velha capital de província, esse nordeste fértil que tantas e tantas vozes tem dado à literatura galega e tantas outras tem acolhido entre as suas pedras. Pensávamo-lo trás passear pelo cemitério velho: se a máxima de Castelao fosse verdadeira, e em vez de mortos fossem sementes as que metêssemos na terra, Mondonhedo seria um jardim. Não é singelo em nenhuma cidade da Galiza ver tantos e tantos nomes nas lápides históricas. Porém, o mais emocionante sem dúvida foi durante a parte do recital que transcorreu ao pé da tumba de Leiras (bem enfeitada com as rosas vermelhas que ele pediu sobre ela).

Alguém da organização me explicava por que a tumba de Leiras está onde está, no que parece a porta principal do cemitério velho, um pouco antes das escadas que dão acesso ao recinto em si, num apartado que depois. se reservou para as crianças. “Isto originalmente era extramuros do cemitério original, Leiras foi enterrado fora do sagrado”. Era evidente, Leiras Pulpeiro, maçom e furibundo anticlerical não obteve o direito a entrar no recinto controlado pela igreja católica

“Contam que o dia do seu enterro, um grupo de lavradores saltou o muro de cemitério e deitou terra com as pás para fora. Assim, mesmo desterrado, Leiras poderia jazer em terra consagrada”. A imagem era tão poética que não pude evitar representá-la mentalmente, um grupo de jovens desafiando o frio daquele Inverno de 1912, e desafiando também algo mais, a mesma estrutura religiosa que abafara ao vate de Mondonhedo e que conservava o seu poder praticamente intacto naquela altura do século XX. Muito deveu significar para o povo uma figura como a de Leiras Pulpeiro, tanto que, numa última homenagem decidiram arriscar-se a dar-lhe ao defunto algo que o próprio defunto, sem dúvida, não apreciaria tanto coma eles: a terra sagrada que não se lhe deve negar a ninguém. Quem disse que o povo não reconhece os seus poetas?

Leiras-e-familia

Leiras e família

Na minha formação sempre me representaram a Leiras como um paisagista, uma denominação que ainda conservo como um tique. A escola paisagista mindoniense, iniciada por Leiras Pulpeiro e Noriega Varela. Tardei alguns anos em saber que Leiras e Noriega eram figuras politicamente opostas, e mais ainda em saber que Leiras Pulpeiro fora um autêntico rebelde durante o Mondonhedo do século XIX, médico dos pobres, capaz de fazer fronte ao poder eclesiástico, mas também de participar na criação de um dos primeiros projetos de “Estado galego” e de ser um dos poucos (se não o único) em contestar os versos eternamente censurados de Rosalia de Castro com estes outros:

E así son sempre pra España/ os patrucios desta terra/ esquencida, que española/ nunca chamarse debera.

E assim são sempre para Espanha/ os patriarcas desta terra/ esquecida, que espanhola/ nunca chamar-se devera.

Seguramente nunca chegaria a apreciar deste modo a figura de Leiras se não fosse pelas colegas de “Mondoñedo é poesia” e por aquela jornada, rica em histórias e em momentos significativos, rodeados sempre das paisagens amadas por Leiras Pulpeiro, Noriega Varela, Álvaro Cunqueiro e tantas outras figuras de primeira fila que decidiram nascer na velha Mondonhedo. E ainda que este ano não possa acompanhá-los, estou seguro de que o programa do próximo 1 de Maio (durante as Festas das Quendas) voltará encher as ruas da antiga capital com o melhor da nossa cultura. Porque, ao invés do que disse Castelao, nunca enterramos sementes junto com os mortos queridos, mas há jardineiros audazes que podem fazer brotar um novo jardim com as suas simples palavras. Mesmo reproduzindo num caloroso dia de Maio a poética valentia de um grupo de lavradores no Inverno de 1912.

Leiras Pulpeiro Tumba

A tumba de Leiras Pulpeiro no Cemitério Velho

#Activismo e resistencia#Leiras Pulpeiro#Literatura#Mondoñedo

12/04/2015 by marioregueira

Ano Lois Pereiro

Casa da Cultura

Voltamos a Monforte no começo de outra Primavera para participar nos actos que dão o nome de Lois Pereiro à Casa da Cultura e à Biblioteca Municipal. Num país tão dado aos esquecimentos como este não deixa de ser um triunfo colectivo que uma figura como Lois perpetue a sua memória na cabeceira dos centros culturais da sua cidade. “Muito melhor que um passeio marítimo ou um barco de guerra” dizia Xosé Manuel Pereiro no acto. E por suposto muito melhor o nome de um poeta que o de um título de nobreza (Conde de Lemos, hoje em mãos da Casa de Alba), tal e como algum grupo político propôs.

Foi inevitável lembrar ontem o 2011, o ano no que o fenômeno Lois conseguiu revolucionar uma data em risco permanente de ancilosamento como é o Dia das Letras Galegas. Apesar de que certos sectores sociais consideraram polémico que um autor achegado à marginalidade urbana como Lois Pereiro protagonizasse a grande data da cultura galega, o verdadeiro é que hoje, quatro anos depois, o balanço que ficou não pode ser mais positivo. Pela primeira vez em décadas as Letras Galegas implicaram na sua festa a toda a sociedade. Das casas okupas às salas da Real Academia Galega, e dos actos oficiais aos bares e pubs. Não foi só casualidade nem foi o sequestro académico de um poeta popular. A figura de Lois foi sempre a de um autor com um noção culta da criação literária que porém (e a diferença da maioria dos seus colegas de geração) nunca deixou de perceber que a cultura popular também era cultura.

crachás

Não sabemos que pode dar de sim o “Ano Lois Pereiro” com o que a câmara municipal de Monforte completou a sua homenagem ao autor, porém, seguramente não serei o único em vê-lo como uma oportunidade para remontar um ano cultural que, até há umas semanas, parecia que seria tétrico e terrível. Trás uns anos de recuperação inegável do contacto com a população, a Real Academia Galega escolhia para o 2015 a figura de Filgueira Valverde, um autor que colaborou activamente com o franquismo, e portanto, também com o genocídio cultural que este efectuou sobre a língua e o povo galegos. Pela primeira vez, e apesar de não ser a primeira figura polémica que passava pelo 17 de Maio, várias associações culturais negaram-se a comemorar um autor escolhido para o Dia das Letras. Porém o que mais abundou e o que mais preocupa é o silêncio, que faz pressentir um 17 de Maio monopolizado pela classe política e por aqueles grupos culturais com um interesse ideológico ou económico no autor.

As comparações são odiosas, mas as vezes também inevitáveis. Não era a primeira vez que pensávamos em Lois e no 2011 desde a decisão da Real Academia Galega. E agora que há uma proposta para celebrar também este 2015 de outra forma resulta impossível não pensar nas figuras que fazem medrar uma sociedade e como seguem a ser referentes por cima daquelas que apostaram por reprimí-la e empequenece-la. Mais uma vez miramos para o poeta do amor e a doença com esperança, como esse ponto de encontro da diversidade de uma cultura, como uma aposta aberta para o futuro, como uma tentativa de deter para sempre a roda da infâmia. Não há melhor nome para uma biblioteca.

biblioteca lois pereiro

#Ano Lois Pereiro#Cotidiano#Día das Letras Galegas#Literatura#Lois Pereiro#Monforte de Lemos
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