16/05/2020 by marioregueira

As oportunidades perdidas

O debate sobre a norma ortográfica do galego é ideológico, não filológico. Agora falta que a imensidão dos filólogos galegos sejam conscientes disso. A necessidade de estabelecer que o galego é uma língua independente da Europa ou que galego e português são variantes locais do mesmo idioma é algo que tem que ver com geopolítica e sentimentos de identidade. Do ponto de vista da história da língua o debate é escasso e, como sempre que se busca um argumento definitivo com o que acalmar os ânimos, não o há. A filologia não nos vai dizer quanta percentagem de proximidade têm que ter duas variantes para ser consideradas o mesmo idioma. Há casos de línguas bem mais próximas que as nossas que são entes radicalmente independentes para a imensa maioria dos seus falantes, e outras que, sem ter essa coesão, serão sempre a mesma língua para estes. As causas são, outra vez, políticas. E na história convulsa da Europa estamos longe de ser uma excepção, corso e italiano, neerlandês e flamengo ou as duas normas escritas do norueguês são só três das dezenas de casos que enchem o mapa, todos com soluções diferentes.

Nesta perspectiva, o debate normativo parte de posições profundamente ideológicas. As duas legítimas já que, por mais que se acusem mutuamente do contrário, ambas acreditam ser a única solução de futuro para uma língua ameaçada. E seguramente também por isso, ambas com os seus excessos identitaristas, ambas com as suas ficções e revisões históricas, sempre mais terríveis e distópicas desde posturas oficiais, mas das que também não estão livres os rebeldes. O português nunca será uma língua “como qualquer outra língua peninsular” ante o galego. Como pouco, partilhamos uma parte muito relevante da sua história e o corpus literário medieval que manejamos criou-se a ambos lados do Minho como expressão do mesmo idioma. Há mais opções para o galego que a falsa dicotomia entre ser uma língua internacional ou ser uma língua minoritária e regional, uma questão que está mais relacionada com o status político do território que com conceitos de pureza linguística.

Enfrentar a festa das Letras com Carvalho Calero no ponto de mira é uma prova de tensão, uma prova para a que a cultura galega demonstra, mais uma vez, que não está preparada. Carvalho *Calero foi, a maior parte da sua vida, “Carballo” Calero, ainda que nos seus últimos anos decidiu ser coerente com a sua perspectiva linguística e adaptar a grafia do seu primeiro apelido (o único dos dois de origem galego-portuguesa). Mais alá de partilhar ou não esse ponto de vista, tomar em consideração outra coisa que não seja a vontade do autor em assinar como quiser é um indicativo de uma sociedade embebida até a medula em birras infantis. Camilo Gonsar é Camilo Gonsar, não o Camilo González Suárez-Llanos com o que assinou as suas primeiras obras. Seria uma atrocidade pôr Rosalía Castro de Murguía debaixo de qualquer das obras que a nossa autora mais referencial escolheu assinar com um nome diferente ao que os usos legais e sociais da época lhe obrigavam a empregar na vida civil. A imensa maioria dos nossos autores tiveram nomes forçosamente castelanizados baixo o franquismo que porém subverteram na sua prática literária e pelos que hoje os lembramos. Curiosamente, a Carvalho não se lhe reconhece essa liberdade. É surpreendente e triste ver figuras de muita mais idade que a que tinha o Carvalho que decide mudar a grafia do seu nome argumentando que devemos seguir a escrevê-lo com b, pois foi todo o produto de uma confusão ao que o submeteram os seus discípulos aproveitando-se da sua velhice.

Trata-se de um debate que não é novo, esta colecção de necrológios, que tomo emprestada do livro de Rafael Fernández Lorenzo, é exemplificativa de como, na Galiza, a Companha dos nossos mortos segue lutando as mesmas guerras que em vida, às vezes mudando involuntariamente de bando (ou militando simultaneamente nos dois). A Real Academia e algumas editoras parecem viver hoje nessa mesma esquizofrenia na que, ironicamente, é mais respeitável quem escreve hoje sobre Carvalho que a decisão que o próprio Carvalho tomou em vida. É fácil falar no nome dos mortos, o 17 de Maio tem-nos bem acostumados a este tipo de questões.

É inegável que Carvalho Calero é uma figura poliédrica, polêmica, contraditória, tão carismática como anti-carismática e, portanto, profundamente viva. Uma coisa que não acostumamos escutar é como o ferrolão está no germe do atual debate normativo. Se a postura reintegracionista é herdeira do Carvalho Calero último, a norma oficial procede da primeiro tentativa de estandardização do galego escrito. A Gramática elemental del gallego comum (1966), está assinada por “Carballo” Calero, dentro da intensa colaboração que o autor tinha com a *Galaxia de Ramón Pinheiro. Também está escrita em espanhol, como muitos dos ensaios que a editora publicava naquela época. Carvalho mudou de ideia, se calhar esta seja a melhor demonstração de que a questão não devera ser percebida como uma fé sectária, senão como uma postura que admite evoluções, debates e posicionamentos diversos.

Carvalho Calero podia ser uma oportunidade, uma celebração de como temos um país tão rico que admite diferentes perspectivas sobre a língua (uma situação fascinante desde o ponto de vista filológico) e como dá para transitar por elas ao longo de uma vida. Uma forma de lembrar que, dentro da Real Academia e mesmo dentro de Galaxia, conviveram e debateram pessoas que tinham visões diferentes sobre a língua que defendiam. Uma escusa para falar das potências e diversidades que nos deixa a história, e também para escutar aos outros e as suas razões. Por desgraça, não é esta a forma de superação do conflito que têm uma parte dos contendentes, especialmente desde o oficialismo. Como em muitos outros debates identitários, a destruição completa e incondicional do rival, acompanhada da manipulação da sua história, segue a ser o único modelo.

#carvalho calero#Día das Letras Galegas#galego-português

17/05/2015 by marioregueira

Requiem Galego 2015

borges J.F._Filgueira,_a_los_17_años.

Há um conto do velho Borges do ano 49 intitulado “Deutsches Requiem”. Nele, um ex-combatente alemão, enumera, pouco antes da sua execução, os motivos que o levaram a apoiar o nazismo na Alemanha. Numa interpretação mística que não foi alheia a todo o fenômeno ideológico da época, o protagonista conclui que a derrota da Alemanha é em realidade uma vitória sobre o mundo. Alemanha apareceu para impor a espada e a barbárie e fazer recuar os valores cristãos. Mesmo derrotada, obrigou ao resto de Ocidente a empreender uma luta épica e crepuscular, dando início assim a uma nova era. O seu sacrifício é um preço pequeno pelo objectivo, que não seria outro que salvar a civilização da decadência.

Se a derrota da Alemanha dava para fazer cábalas sobre uma vitória oculta, bem mais se poderia dizer do franquismo, nunca abaixado pelo poder da espada. A vitória do franquismo foi saber mimetizar-se, acompanhar como um fantasma perene o espírito da Transición, voltar ciclicamente desde as urnas ou as associações ultra católicas, seguir ecoando desde os tétricos antros onde se seguiu e se segue a praticar a tortura (300 casos dos que a O.N.U. diz que o Estado espanhol se nega a informar).

Não foi algo muito diferente do que o regime fez em vida. Os rapazolas que vitoriavam a aviação germana ou a italiana preconizavam que Franco sairia de Hendaia disposto a atirá-los contra o resto do mundo, se calhar dispostos a uma luta épica e crepuscular que habitou para sempre nos sonhos do falangismo romântico. Mas Franco soube ir vestindo os diferentes fatos de camaleão, e em pouco mais de uma década passava de possível e entusiasta aliado do nazismo a aliado de facto dos Estados Unidos contra a ameaça comunista. E de aí a entrar na UNESCO, abrir o país ao turismo, e normalizar entre aspas a sua situação com a comunidade internacional, sem por isso deixar de reprimir e assassinar à população. Alguns biógrafos não perdem a oportunidade de pôr o toque xenófobo e ressaltar que Franco era galego e que por isso ninguém sabia se subia ou se baixava.

Vendo o documentário de Gonzalo Veloso Contextualizando a Filgueira Valverde dá nas vistas como alguns dos convidados destacam algo muito parecido no polígrafo pontevedrés. Filgueira esteve sempre onde “tinha que estar”: foi independentista quando correspondia, nacionalista quando correspondia, franquista quando correspondia, aperturista depois e finalmente democrata de toda a vida ou, se nos guiamos por recentes declarações de Alonso Montero, mesmo agente oculto do galeguismo entregado a uma (muito paciente e demorada) erosão do franquismo.

Filgueira Valverde poderia passar à história das nossas letras como um erudito que traiu uma causa. Ninguém disputa o de erudito, mas parece haver muitas pessoas e instituições dispostas a passar por alto o segundo. A primeira, a Real Academia Galega, para quem não pesaram o suficiente todas as opiniões em contra. Em realidade, não surpreende demasiado, a Real Academia Galega e Filgueira Valverde são produtos de um processo similar. O primeiro desfez-se do fardo da sua ideologia quando foi um obstáculo para a sua sobrevivência. A Real Academia Galega também se desfez de parte do seu passado para ser, durante os primeiros anos da posguerra, uma resignada instituição com um cheirinho folclórico. Teve que renunciar ao galego nas suas manifestações públicas e aceitou, como académico de honra, ao grande genocida da sua própria cultura, o general Francisco Franco, se calhar com o mesmo gesto com o que Filgueira o recebia nas suas visitas a Pontevedra. Dizia Francisco Castro estes dias que não havia que ter medo de dizer que Filgueira fora galeguista e franquista. É óbvio que o significado de galeguismo não é o mesmo para todo mundo, mas também é evidente que, na interpretação de Francisco Castro, também a Academia deveu ser galeguista e franquista, ao menos até 2009. Até esse ano (presidência de Méndez Ferrín) ninguém se lembrou de retirar ao monstro ferrolão um título que ainda mantêm outros galegos de méritos bem discutíveis na sua defesa da língua. Se calhar o próprio Francisco Franco, de quem se rumoreja que falava em galego na intimidade do Azor com o fotógrafo Manuel Ferrol e que reconhecia “gostar” do nosso hino, fosse também um pouco galeguista além de franquista. Quem sabe o que depara o futuro da Academia, ao melhor ainda há espaço para assombros e podemos ver Dias das Letras que nos deixem atónitos.

Filgueira Valverde. Um faro na construção da Galiza. (culturagalega.gal)

Porém, o problema da instituição não se limita só a esse peso do franquismo. O camaleão tem fatos para todo, e os seus próprios movimentos de “reconquista” estiveram marcados por dinâmicas peculiares. Carvalho Calero e Francisco Fernández del Riego, avançada útil do grupo de Galaxia, vão recorrer de seguida à constituição de uma “família”, um grupo de pressão próprio que vá fazendo “entrismo” paulatino para acabar por controlar a Academia. Eram as estratégias da época, mas elas também representam o triunfo do franquismo e as suas políticas de famílias e correligionários, tendentes a um sectarismo que entrou na Academia de forma bem mais estável que o que marcam os ritmos históricos. O franquismo, como o nazismo do conto de Borges, triunfou. Obrigou a toda a sociedade a mirar-se de soslaio, a ver inimigos em cada esquina, a vestir fatos para cada ocasião, a procurar contactos e influências para poder conseguir as coisas às que deveram aceder por mérito ou direito. Quem se mexe não aparece na foto, se calhar por isso, numa Academia com nomes pouco suspeitos de conivência com o que representa Filgueira Valverde, (quase) ninguém se mexeu.

Não há que ser um erudito como o homenageado para saber, a estas alturas do século XXI, que existiu uma política de consentimento e colaboração de determinados sectores do franquismo com o galeguismo resistente. A própria Academia sobreviveu a ditadura porque a ditadura nunca a considerou um perigo, muitos dos seus membros sobreviveram porque tiveram padrinhos bem relacionados com o regime, o próprio Filgueira Valverde entre eles. A Academia desculpa o medo de Filgueira porque com ele acredita que queda desculpado também o seu próprio medo. Essas acções vão muito além dos poemas que Alonso Montero tanto gostou de expurgar, são menos contigentes e menos literárias, mas no nome delas criaram-se dinâmicas que nos acompanham até agora, como o espectro que ronda o espírito da chamada “transição política”. No nome de muitas dessas dinâmicas perdemos o país e estamos perdendo a língua. Uma amostra da madureza das nossas instituições culturais seria apostar por uma óptica ampla, abrir o debate, promover uma análise que enfoque a questão sem ambages e sem jogar a criar imagens patéticas, como a do homem que chora a sua covardia quando se lembra de que não foi falar no julgamento de Bóveda e a quem nós temos que celebrar este dezassete de Maio. Sem criar santinhos aos que, por um ano, levar bíblias acabadas de imprimir e velas, e dos que, como se faz nos enterros, está proibido falar mal em voz alta.

Se calhar a própria concepção da festa e as suas regras absurdas convide a isso. O carácter do Dia das Letras, a sua coincidência no espaço-tempo com familiares e testemunhas, foi útil baixo a ditadura, mas também o arrastamos até um tempo no já que não resulta uma ferramenta, mas um lastro. O que se avança em conhecimento de um autor perde-se no elogio imposto, a objectividade não tem cabida quando a missão é criar uma afirmação entusiasta e um ambiente de celebração, e a crítica é silenciada desde as instâncias mais altas. Se calhar sejam horas, mais do que nunca, de reformular como é que se vai continuar a  fazer as coisas, abrir as janelas e impedir que esses herdeiros de outro tempo, com os seus fatos camaleónicos, sigam reproduzindo-se sobre um palco do século passado. O mesmo no que não se contesta a ausência de figuras femininas por precaução e respeito. O mesmo onde o debate normativo não tem cabida nem baixo a figura de um antigo membro, mas sim cabem genocidas em postos de honra. O mesmo que se justifica orgulhoso no seu próprio nepotismo. O mesmo no que trair camaradas de militância é “o que corresponde” porque estamos familiarizados até a náusea com a linguagem de um medo que tem quase um século de história.

Joan Fuster dizia que o mais repulsivo dos povos dominadores é que impõem aos seus dominados o espectáculo da sua mediocridade sem remédio. No caso do franquismo, e no caso concreto do nosso malfadado país, haveria que somar-lhe o contágio dessa mesma mediocridade, o triunfo do mimetismo e da conveniência, a vitória quotidiana dos generais mortos, tantos anos depois, o réquiem inacabável do povo galego.

Filgueira Filoloxía

Cartaces da Xunta de Galicia contextualizados espontaneamente.

#Día das Letras Galegas#Filgueira Valverde#Jorge Luis Borges#Literatura

12/04/2015 by marioregueira

Ano Lois Pereiro

Casa da Cultura

Voltamos a Monforte no começo de outra Primavera para participar nos actos que dão o nome de Lois Pereiro à Casa da Cultura e à Biblioteca Municipal. Num país tão dado aos esquecimentos como este não deixa de ser um triunfo colectivo que uma figura como Lois perpetue a sua memória na cabeceira dos centros culturais da sua cidade. “Muito melhor que um passeio marítimo ou um barco de guerra” dizia Xosé Manuel Pereiro no acto. E por suposto muito melhor o nome de um poeta que o de um título de nobreza (Conde de Lemos, hoje em mãos da Casa de Alba), tal e como algum grupo político propôs.

Foi inevitável lembrar ontem o 2011, o ano no que o fenômeno Lois conseguiu revolucionar uma data em risco permanente de ancilosamento como é o Dia das Letras Galegas. Apesar de que certos sectores sociais consideraram polémico que um autor achegado à marginalidade urbana como Lois Pereiro protagonizasse a grande data da cultura galega, o verdadeiro é que hoje, quatro anos depois, o balanço que ficou não pode ser mais positivo. Pela primeira vez em décadas as Letras Galegas implicaram na sua festa a toda a sociedade. Das casas okupas às salas da Real Academia Galega, e dos actos oficiais aos bares e pubs. Não foi só casualidade nem foi o sequestro académico de um poeta popular. A figura de Lois foi sempre a de um autor com um noção culta da criação literária que porém (e a diferença da maioria dos seus colegas de geração) nunca deixou de perceber que a cultura popular também era cultura.

crachás

Não sabemos que pode dar de sim o “Ano Lois Pereiro” com o que a câmara municipal de Monforte completou a sua homenagem ao autor, porém, seguramente não serei o único em vê-lo como uma oportunidade para remontar um ano cultural que, até há umas semanas, parecia que seria tétrico e terrível. Trás uns anos de recuperação inegável do contacto com a população, a Real Academia Galega escolhia para o 2015 a figura de Filgueira Valverde, um autor que colaborou activamente com o franquismo, e portanto, também com o genocídio cultural que este efectuou sobre a língua e o povo galegos. Pela primeira vez, e apesar de não ser a primeira figura polémica que passava pelo 17 de Maio, várias associações culturais negaram-se a comemorar um autor escolhido para o Dia das Letras. Porém o que mais abundou e o que mais preocupa é o silêncio, que faz pressentir um 17 de Maio monopolizado pela classe política e por aqueles grupos culturais com um interesse ideológico ou económico no autor.

As comparações são odiosas, mas as vezes também inevitáveis. Não era a primeira vez que pensávamos em Lois e no 2011 desde a decisão da Real Academia Galega. E agora que há uma proposta para celebrar também este 2015 de outra forma resulta impossível não pensar nas figuras que fazem medrar uma sociedade e como seguem a ser referentes por cima daquelas que apostaram por reprimí-la e empequenece-la. Mais uma vez miramos para o poeta do amor e a doença com esperança, como esse ponto de encontro da diversidade de uma cultura, como uma aposta aberta para o futuro, como uma tentativa de deter para sempre a roda da infâmia. Não há melhor nome para uma biblioteca.

biblioteca lois pereiro

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