05/06/2016 by marioregueira

O nome dos escravos

Ali-Terrell

Adaptada de Cliff – (CC BY 2.0)

“Como me chamo?” “Como me chamo, Tio Tom?”. A pergunta, dirigida entre golpes a Terrell marcou um antes e um depois. Cassius Clay renunciara ao seu nome de escravo para ser conhecido como Muhammad Ali e demonstrava de que modo rompem os escravos as suas últimas correntes. As minorias e as classes baixas não tardaram em identificar-se com a sua arrogância. Na periferia de São Paulo, onde a minha família seguiu esse e outros combates, ter um nome de escravo ainda significava algo e Ali não tardou em ser reconhecido como um digno herói das classes baixas. Alguém que vinha da nada, mas que tirara de algum lado uma arrogância que não convidava à antipatia, senão que mais bem representava todas as vitórias negadas de uma classe social. Ali era mais do que um boxeador, era um símbolo, uma identidade, uma espécie de superheroe que não tardaria em vencer ao mesmo Superman.

Numa época na que os combates estavam bem mais longe que um par de clicks, a memória de Ali transmitia numa espécie de representação teatral improvisada acompanhada de relatos orais. Sabia dele como de outras mitologias familiares. A inclinação ao boxe na minha família sempre foi relativa e profundamente vinculada a elementos sociais. À madrugada viam-se, as vezes clandestinamente, os poucos combates dos púgiles da Galiza. Pelo dia lembrava-se ao mais grande de todos os tempos. De não mudar o nome, de não ser arrogante e de não se enfrentar à maquinaria da guerra estadounidense, eu não saberia nunca que era Muhammad Ali, como nunca me falaram de Frazier ou de Foreman. Mas ninguém esquece a quem disse em voz alta que Vietnã era uma guerra na que os brancos mandavam pretos a lutar contra os comunistas. “Ninguém do Vietcong me chamou nunca preto. Nenhum deles me linchou, nem me mandou os cães, nem me roubou a minha identidade, nem violou a minha mãe e assassinou o meu pai. Não vou disparar contra essa gente por ser pobre. Prefiro ir à prisão”.

Malcolm X & Ali

Bob Gomel – (CC BY-SA 4.0)

Há tempo que não sigo a imprensa convencional, mas posso imaginar a caricatura de Ali que estão deixando. O campeão, o portento físico, o desportista. Fizeram-no com Mandela e era mais difícil. Podemos jogar a esquecer o papel de Ali nos movimentos sociais. Mas seguirá havendo muita gente que, mais que ao boxeador, admiramos o homem que deixou de boxear. Que sabendo que o desporto era a sua vida decidiu sacrificar a sua carreira e enfrentar a prisão e o descrédito por fazer simplesmente o correcto. De que vale ser campeão se não tens dignidade?

Mais ali dos aparecimentos pontuais na televisão, tardei anos em reconstruir toda essa memória imaterial. Reconhecia o seu sorriso, o seu voar como borboleta e picar como abelha, as fanfarronadas que vingavam as humilhações das multidões. Escutava o povo do Zaire gritando “Ali bumaie” enquanto as peças simbólicas completavam as paisagens intuidas. Não era casualidade que fosse Foreman, o bom escravo convertido ao cristianismo, o derrotado por um Ali imparável, acolhido pelos africanos como uma criança perdida e reencontrado. Dizem que as crianças de Kinshasa ainda sonham em ser coma ele, e que o seu fantasma segue a percorrer os bairros pobres das cidades. Se não tens medo dos teus sonhos é porque não são grandes suficiente.

O meu telemóvel soou a primeira hora da manhã de um sábado. Deitei-lhe mão entre sonhos e li incrédulo a notícia. Nos seus últimos aparecimentos, Ali estava avellentado e afectado pela doença. Isso pensámo-lo agora, porque o seu carisma sempre esteve intacto, e os seus punhos seguiam golpeando na nossa memória. Não duvidei de que tinha que ser um erro e segui dormindo. Sonhei com rings enormes, com gente da minha família recreando aquele k.o., com Laila Ali, com um combate numa África sufocante, com tios tom aprendendo o nosso nome a golpes e com canalhas mordendo a lona para sempre.

#Activismo#Boxeo#Deporte#Muhammad Ali#Resistencia

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