17/12/2018 by marioregueira

As versões do galego

Imagem de jcbrandon (CC BY 2.0)

Uma tragédia de Shakespeare. Assim qualificava Paul McCartney a história da banda Badfinger, de como o tiveram todo para triunfar (o próprio apoio dos Beatles a começos dos anos 70) e mesmo assim acabaram espatifándo-se, abrindo a caixa dos desastres, discos retirados e suicídios das suas principais figuras incluídos. Resulta curioso como a história do grupo é relativamente desconhecida, apesar da enorme popularidade dum dos seus temas. Whithout You, canção que ainda muita gente pensa que é de Nilsson, que a interpretou em 1972, e outra gente mais nova que é de Mariah Carey, que o fez em 1994. E não é tão estranho escutar pessoas de ambas gerações discutindo sobre se o tema é dum ou doutra.

Ninguém aguardava este ano a popularidade que as versões em galego tomariam na cultura de massas do Estado espanhol, também não que alguma delas acordaria velhas questões que, por momentos, parece que só têm importância na Galiza. Questões que aparecem conforme se vão apagando os ecos e vozes de alem-mundo da caverna espanhola depois duns meses de clamar contra a incorporação da Galiza na Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Placa no Castelo de Guimarães, adaptada de Béria L. Rodríguez (CC BY-SA 3.0)

Fala A Galiza português? Fala a lusofonia galego? A transmissão das línguas é similar à das versões musicais, ainda conservando uma parte importante da informação, ao menos a instrumentação e a voz que canta mudam. E porém, mesmo precisando duns segundos para dar-nos conta, se conhecemos a primeira, imediatamente entenderemos de que se trata da mesma música. Melhorada ou não, mas é uma simples versão. O que se fala a sul e norte do Minho deriva da mesma língua musical na que o compostelam Johán Airas e o rei português Dom Dinís compunham as suas cantigas. A gente do antigo Condado Portucalense, já convertido em reino pelos azares da História, levou-a primeiro ao sul da fronteira de Coimbra, e depois a América, África, Ásia e Oceânia. Em todos esses territórios misturou-se de novo, semeou línguas crioulas e contagiou-se de vozes indígenas e de palavras estrangeiras. É a mesma língua, na que, numa viagem de regresso desde o Brasil que a ele mesmo fascina, fala Caetano Veloso cada vez que nos visita. E claro que há diferenças, e nessas diferenças é que reside também uma parte da nossa identidade mas, se atendemos, podemos escutar o mesmo sotaque da Costa da Morte numa rua dos Açores, um velho refrão da nossa avó numa praia de Rio ou alguma das exclamações familiares em alguma ilha do Pacífico.

Num dos meus livros o protagonista fala dum disco de versões que está gravando. Fala delas como duma sorte de magia, da forma na que uma canção é reconhecível, mas também é diferente e ao mesmo tempo transportam-nos ao ponto no que a escutamos pela primeira vez. Gosto de pensar que algo disso se mantém na relação da língua galega com as suas variantes históricas, que serve para mantermos algo daquele primeiro eco no que tudo começava.

Por certo, uma das concursantes do certame musical Music Idol (edição búlgara) deixou atónito ao juri e a méio mundo quando anunciou que ia cantar Ken Lee de Mariah Carey. Porém, com melhor ou pior interpretação, ou com um sotaque mais ou menos marcado, o tema seguia a ser claramente Without You. De Badfinger, que eram galeses e tiveram uma má sorte digna duma tragédia de Shakespeare. Ou dalgum velho reino do sul da Europa.

Placa em Swansea-Abertawe, imagem adaptada de Reading Tom – (CC BY 2.0)

#Badfinger#Brasil#Gales#Galiza#Lusofonía#OT#Portugal#Reintegracionismo#Sabela

02/05/2017 by marioregueira

Caetano, de novo na Galiza

Teresa Cristina e Carlinhos Sete Cordas representavam uma viagem ao passado. A história do samba pode percorrer-se quase sem equipagem, só com voz e guitarra, assim, ainda que deitemos em falta a intro original de Preciso me encontrar, Cartola e os seus letristas apareciam ressuscitados numa actuação com poucos artifícios. Tão singela que poderiam transferí-la a um bar, ainda que não podemos enganar-nos, seguramente a maior parte do público não responderia calidamente a um espectáculo que percebiam como um simples aperitivo.
Assim, se Cartola era uma parte da história da música popular brasileira, Caetano representava o seu ponto culminante, a sua continuação natural. E suspeito que o concerto foi programado seguindo esse mesmo princípio. Uma colecção de grandes sucessos que se moviam com fluidez entre as raízes da bossa, a renovação que supôs o tropicalismo e algumas (muito poucas) referências à carreira imediata do cantor. A última vez que vim a Caetano ao vivo foi há quase uma década no mesmo Palácio da Ópera da Corunha, num concerto dentro da gira do . Caetano fizera um disco de rock com quase sessenta e cinco anos, e aparecia vestindo jeans, saltando pelo palco e acompanhado de uma banda formada por pessoas novas. Conseguira fazê-lo mais uma vez, ser capaz de encarnar simultaneamente história e músculo impulsor da música brasileira. O Caetano do passado domingo estava já mais perto do João Gilberto que de qualquer coisa que tivesse algo a ver com o rock. Sentado com o violão durante a maior parte da actuação, Caetano poderia ter gravado um grandes sucessos ao vivo, algo mais que suficiente para a maior parte do público da Galiza. Seguramente éramos só uns poucos os que ficamos com vontade de ter, ademais, outra coisa, ainda que fosse escutar Um comunista na véspera imediata do primeiro de Maio.

Os idosos do lugar lembram sempre dum dos primeiros concertos de Caetano na Galiza, a finais dos anos oitenta. Parece que se dirigiu ao público consciente de que estava a tocar na terra na que nascera a língua portuguesa, uma língua que seguimos a falar com particularidades próprias e à que demos o revolucionário nome de galego. A consciência linguística de Caetano não é habitual nos artistas brasileiros, que tratam de expressar-se muitas vezes num portunhol que deixa surpreendido (ou irritado) a uma parte do público. Para alguém que disse que uma das coisas mais maravilhosas do Brasil era que falasse a língua portuguesa, é evidente que a maravilha continua no facto desta ter-se originado em boa parte dum território que não faz parte de Portugal. Assim, uma parte do público aguardava que aparecessem de novo essas velhas cumplicidades. “Sempre que venho a Corunha falo português porque sei que vocês percebem. E gosto muito de que seja assim”. Desta vez não houve alusões ao sotaque lindo da gente quando cantou com ele, como em Vigo no 2003, mas foi suficiente para lembrar que Caetano segue a ser uma das poucas pessoas com consciência cultural dos lugares nos que canta. Com virtudes e defeitos, seguimos a olhar para ele como quem olha para as maravilhas e os milagres.

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