18/10/2019 by marioregueira

(galego) Matar o recadeiro, III Premio de Xornalismo Manuel Lueiro Rey

12/04/2019 by marioregueira

Se isto é un homem

Primo Levi (1960)

Era o Inverno de 1943 quando o grupo de Primo Levi (Torino, 1919), que tratava de unir-se à Resistenza partigiana, foi capturado pelas forças fascistas. Ante a perspectiva de uma execução sumária, Primo confessa ser judeu, algo que lhe serviria para ser transferido a um campo de concentração em Fossoli desde onde, algumas semanas depois, será embarcado nos infames vagões de gando, e junto com centos de pessoas mais, em direcção ao complexo de campos de Auschwitz. Continuar lendo no Sermos Galiza [GAL].

#Activismo e resistencia#Crítica#Holocausto#II Guerra Mundial#Literatura#Memoria#Primo Levi#Tradución

30/12/2018 by marioregueira

A orde do dia

Como um ferimento que examinamos uma e outra vez e por isso mesmo não acaba nunca de fechar. A memória do nazismo segue dando voltas por Europa arrastando a sua vida intelectual pelos mais diversos becos, muitos deles sem saída. A verdade é que há uma afixação à hora de explicar o mal que aconteceu entre os anos trinta e quarenta do passado século que só pode perceber-se em chave de superioridade moral. O que arrepia nos círculos intelectuais dos nossos dias é que fossem europeus de uma das sociedades mais desenvolvidas da época matando sistematicamente os seus próprios cidadãos. Estas condições nunca voltaram repetir-se integramente, e pareceria que o mundo vê ainda como factos muito menos graves os genocídios organizados que aconteceram na Ásia ou África. E com uma cumplicidade arrepiante que os seus próprios governos participassem nos últimos anos bombardeando lugares distantes como Líbia ou Iraque. Para a memória do nazismo criaram-se explicações que a dia de hoje ainda se esgrimem no debate intelectual: entre as mais divertidas, as que responsabilizam elementos como a própria cultura ou o desenvolvimento técnico, ainda que não fica atrás o recurso à banalidade do mal, que de alguma forma implica que qualquer funcionário gris pode transmutarse da noite para a amanhã num genocida, passando por alto o processo político e social que produz essa mesma oportunidade.

A ordem do dia de Éric Vuillard, atirada há uns meses por Kalandraka em tradução ao glaego de Antía Veres, é uma obra que surpreende por conseguir oferecer um enfoque que resulta inovador, ainda que não deixe de voltar por alguns dos velhos caminhos trilhados. O ponto de partida do livro, o mesmo que se destaca na apresentação editorial fala de como “As pessoas passam, mas os grandes capitais perduram”. O encontro da alta hierarquia nazista com representantes empresariais alemães de marcas ainda presentes hoje no nosso dia a dia como Opel, Siemens, Bayer ou Allianz dá início a um romance atípico, composta por estampas históricas de corte realista e com uma trama principalmente expositiva que poderia emparentala com o género do documentário histórico. E apesar disto, é uma lástima que Vuillard não responda completamente a esse ponto de partida inicial de perseguir os fios dos grandes capitais desde o seu apoio ao Partido Nazista até os nossos dias e passe a se ocupar doutros episódios históricos que reduzem este marco a pouco mais que um vistoso relato. A anexação da Áustria, a política expansionista e intimidatória de Hitler, ou os truques que na política internacional lhe permitiram mover os marcos duma Europa incapaz de reagir, centram os principais temas do romance.

Um percurso que parece a enésima referência a esses homens de se bem que não fã nada e permitem que o mal triunfe, passando por alto a grande responsabilidade dos governos europeus que permitiram medrar o nazismo como estratégia de contenção ante a ameaça soviética. Não é a passividade do chanceler austríaco Kurt Schuschnigg diante de Hitler o que condena a Europa, mais que nada porque Schuschnigg não era outra coisa que o líder de uma ditadura nacional-católica que só se viu ameaçada por Hitler por ter as fronteiras perto de mais da Alemanha. Um erro de perspectiva que peja um romance que mesmo assim consegue deixar-nos reflexões relevantes e poucas vezes lembradas. Como essa reflexão final na que se nos diz que nunca tropeçamos duas vezes no mesmo abismo, mas que voltaremos cair num novo e será da mesma forma: com uma mistura de ridículo e pavor.

#Activismo e resistencia#Antía Veres#Éric Vuillard#Historia#II Guerra Mundial#Kalandraka#Novela

17/12/2018 by marioregueira

As versões do galego

Imagem de jcbrandon (CC BY 2.0)

Uma tragédia de Shakespeare. Assim qualificava Paul McCartney a história da banda Badfinger, de como o tiveram todo para triunfar (o próprio apoio dos Beatles a começos dos anos 70) e mesmo assim acabaram espatifándo-se, abrindo a caixa dos desastres, discos retirados e suicídios das suas principais figuras incluídos. Resulta curioso como a história do grupo é relativamente desconhecida, apesar da enorme popularidade dum dos seus temas. Whithout You, canção que ainda muita gente pensa que é de Nilsson, que a interpretou em 1972, e outra gente mais nova que é de Mariah Carey, que o fez em 1994. E não é tão estranho escutar pessoas de ambas gerações discutindo sobre se o tema é dum ou doutra.

Ninguém aguardava este ano a popularidade que as versões em galego tomariam na cultura de massas do Estado espanhol, também não que alguma delas acordaria velhas questões que, por momentos, parece que só têm importância na Galiza. Questões que aparecem conforme se vão apagando os ecos e vozes de alem-mundo da caverna espanhola depois duns meses de clamar contra a incorporação da Galiza na Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Placa no Castelo de Guimarães, adaptada de Béria L. Rodríguez (CC BY-SA 3.0)

Fala A Galiza português? Fala a lusofonia galego? A transmissão das línguas é similar à das versões musicais, ainda conservando uma parte importante da informação, ao menos a instrumentação e a voz que canta mudam. E porém, mesmo precisando duns segundos para dar-nos conta, se conhecemos a primeira, imediatamente entenderemos de que se trata da mesma música. Melhorada ou não, mas é uma simples versão. O que se fala a sul e norte do Minho deriva da mesma língua musical na que o compostelam Johán Airas e o rei português Dom Dinís compunham as suas cantigas. A gente do antigo Condado Portucalense, já convertido em reino pelos azares da História, levou-a primeiro ao sul da fronteira de Coimbra, e depois a América, África, Ásia e Oceânia. Em todos esses territórios misturou-se de novo, semeou línguas crioulas e contagiou-se de vozes indígenas e de palavras estrangeiras. É a mesma língua, na que, numa viagem de regresso desde o Brasil que a ele mesmo fascina, fala Caetano Veloso cada vez que nos visita. E claro que há diferenças, e nessas diferenças é que reside também uma parte da nossa identidade mas, se atendemos, podemos escutar o mesmo sotaque da Costa da Morte numa rua dos Açores, um velho refrão da nossa avó numa praia de Rio ou alguma das exclamações familiares em alguma ilha do Pacífico.

Num dos meus livros o protagonista fala dum disco de versões que está gravando. Fala delas como duma sorte de magia, da forma na que uma canção é reconhecível, mas também é diferente e ao mesmo tempo transportam-nos ao ponto no que a escutamos pela primeira vez. Gosto de pensar que algo disso se mantém na relação da língua galega com as suas variantes históricas, que serve para mantermos algo daquele primeiro eco no que tudo começava.

Por certo, uma das concursantes do certame musical Music Idol (edição búlgara) deixou atónito ao juri e a méio mundo quando anunciou que ia cantar Ken Lee de Mariah Carey. Porém, com melhor ou pior interpretação, ou com um sotaque mais ou menos marcado, o tema seguia a ser claramente Without You. De Badfinger, que eram galeses e tiveram uma má sorte digna duma tragédia de Shakespeare. Ou dalgum velho reino do sul da Europa.

Placa em Swansea-Abertawe, imagem adaptada de Reading Tom – (CC BY 2.0)

#Badfinger#Brasil#Gales#Galiza#Lusofonía#OT#Portugal#Reintegracionismo#Sabela

28/04/2018 by marioregueira

Roald Dahl e as vacinas

Como todos os anos, a OMS declarou a última semana de Abril como Semana Mundial de Imunização, este 2018 com o ma lema “Protegidos juntos. As vacinas funcionam”. Num ano marcado pelo comportamento irresponsável de certos representantes políticos, é boa ideia lembrar alguns dos princípios pelos que as vacinas seguem a ser a melhor opção conhecida.

Para isto, decidi recuperar e traduzir carta aberta de Roald Dahl de 1988 sobre o tema. Apesar da sua antiguidade, por desgraça, muitas das coisas que diz o escritor galês continuam sendo aplicáveis hoje e, aliás, tem desfrutado de uma renovada popularidade através da rede nos últimos anos. Também nos devolve uma perspetiva que temos esquecida, e que muita gente relaciona com as atitudes retrógradas que se opõem à vacinação: temos tão normalizado um mundo sem o efeito de certas doenças que podemos pensar que sempre foi assim. Mas não o foi, houve um tempo no que morrer ou ficar com graves sequelas pelo sarampo, a poliomelite, a varíola ou outras doenças era o mais normal do mundo. Assim o conta Roald Dahl:

Sarampo: uma doença perigosa

Olívia, a minha filha mais velha, apanhou o sarampo quando tinha sete anos. Enquanto a doença desenvolvia o seu curso normal, lembro-me lendo-lhe a miúdo na cama, sem sentir-me especialmente alarmado por ela. Então, uma manhã, quando estava caminho da recuperação, eu estava sentado na sua cama mostrando-lhe como fazer animalzinhos de fios de cores, então chegou a sua vez de fazer um e notei como os seus dedos e a sua mente não estavam a trabalhar conjuntamente e não podia fazer nada.

“Sentes-te bem?” Perguntei-lhe.

“Estou com sono”, disse.

Numa hora, estava inconsciente. Em doce horas estava morta.

O sarampo tinha se convertido numa coisa terrível chamada encefalite por sarampo e não havia nada que os médicos pudessem fazer para salvá-la. Foi há vinte e seis anos, em 1962, mas mesmo agora, se uma criança com sarampo desenvolve a mesma reacção mortal da doença que Olívia desenvolveu, segue sem haver nada que a medicina possa fazer para ajudá-la.

Por outra parte, hoje há algo que os pais podem fazer para assegurar-se de que este tipo de tragédia não aconteça a um dos seus filhos. Podem insistir em que as suas crianças estejam vacinadas contra o sarampo. É algo que eu não pude fazer por Olívia em 1962 porque naqueles dias ainda não fora descoberta uma vacina fiável contra o sarampo. Hoje, todas as famílias têm ao seu dispor uma vacina segura e confiável e o único que tens que fazer é falar com o médico para que a administre.

Ainda não é algo maiormente aceite que o sarampo possa ser uma doença perigosa. Acredite em mim, sim que o é. E na minha opinião os pais que rejeitam vacinar os seus filhos, estão pondo as suas vidas em risco. Na América do Norte, onde a vacinação contra o sarampo é obrigatória, esta doença, assim como a varíola, foi virtualmente erradicada.

Aqui em Grã-Bretanha temos ainda centos de casos de sarampo todos os anos, já que muitos pais e mães rejeitam, bem seja por obstinação, ignorância ou medo, que os seus filhos sejam vacinados. Ademais disto, mais de 10.000 sofrerão efeitos secundários de um modo ou de outro. Ao menos 10.000 desenvolverão infecções de ouvido ou de peito. Uns 20 deles morrerão.

PERCEBAMOS ISTO.

Cada ano mais ou menos 20 crianças morrerão em Grã-Bretanha de sarampo.

Assim que, quais são os riscos que enfrentam os teus filhos por ser vacinados?

São quase inexistentes. Escute isto. Num distrito de mais ou menos 300.000 pessoas, há só uma criança cada 250 anos que desenvolverá efeitos secundários sérios pela vacina do sarampo. Isto vem sendo uma possibilidade de uma contra um milhão. Penso que há mais possibilidades de que a tua criação possa morrer engasgada por um chocolate que de pôr-se seriamente enferma pela vacina do sarampo.

Então que demónios é o que te preocupa? É praticamente um crime deixar que o teu filho continue sem vacinar.

O tempo ideal para fazê-lo é aos 13 meses, mas nunca é tarde demais. Todas as crianças em idade escolar que ainda não recebessem uma vacina contra o sarampo, deveriam pedir-lhes aos seus pais que lhe procurem uma o antes possível.

Por certo, dediquei dois dos meus livros a Olívia. O primeiro foi “James e o pêssego gigante”. Isso foi quando ainda estava viva. O segundo foi “O Bon Gigante Amigo”, dedicado à sua memória depois de que morresse de sarampo. Verás o seu nome ao começo de cada um destes livros. E sei o feliz que seria se pudesse saber que a sua morte ajudou a poupar um bom número de mortes e doenças entre outras crianças.

#Ciencia e tecnoloxía#Escepticismo#Literatura#Roald Dahl#Vacinas

23/04/2018 by marioregueira

Um jogo que não podemos ganhar

O romance de Ernest Cline será lembrado algum dia como um pequeno clássico da literatura popular. Além da corrente de nostalgia dos 80 na que poderia inserir-se, Ready Player One tem, como obra literária, alguns achados próprios que merecerão ser lembrados. O mais destacado sem dúvida é a conversão dum universo procedente do mundo dos videojogos em material narrativo com um peso relevante na trama. Que a maior parte do que nos conta Ernest Cline aconteça num mundo paralelo construído numa espécie de realidade virtual jogável é uma novidade que brilha porque o autor consegue que funcione dentro da narração de forma dinâmica. Não é um recurso completamente inédito (profetas teve o ciberpunk que experimentaram antes), mas a sua conjugação com a cultura gamer e com a história dos videojogos como género, assim como a relação com os nossos tempos, estão entre o melhor que o romance pode oferecer. Em primeiro lugar porque conta o processo próprio do jogo (a carreira de enigmas e reptos para se fazer com o controlo do sistema), ainda que também porque a ideia de uma grande corporação que domina o planeta e tem o monopólio de âmbitos como a educação, a banca e os mecanismos de ascensão social aponta também à tradição das distopias, com tudo o que as distopias tiveram sempre de dimensão política.

Quando se soube que Spielberg adaptaria ao cinema o grande sucesso de Cline, fomos muitas as pessoas que pensamos que era um encontro feliz, quase ideal. Ready Player One tem elementos de intriga e aventura que pediam uma versão fílmica, ainda que a complexidade do romance também fazia temer que fosse um insucesso que escureceria para sempre alguns dos pontos mais destacáveis desta. Toda adaptação tem algo de jogo de soma zero: há algo que a nova versão ganha, como um aspecto definido mais alá da imaginação de cada leitor, e também algo que se perde irremediavelmente. Isto é fácil de compreender. A voz em off do protagonista que domina os primeiros minutos é pesada, mas trata de criar rapidamente um contexto complexo como é o que propõe a obra original. Há personagens que introduzem mais diversidade racial e de género da que tinha o romance (um dos seus pontos fracos). O filme altera partes da trama para conseguir mais elementos de acção do que permitia a resolução de mistérios e procura de pistas do original. Esta procura, reduzida ao mínimo, é adaptada de uma forma bastante interessante, que permite não aborrecer ao espectador e que também lhe dá a oportunidade assistir à vida de Halliday mediante flashbacks. Não é tão acertada a adaptação dos elementos de investigação e aventura, já que derruba uma parte importante da carga cultural da que fazia gala a primeira versão, substituindo-a por uma visão estereotipada dos videojogos como elementos de pura acção. Isto é algo que também se deixa notar na estética escolhida, que parece tirada de outros produtos jogáveis dos 90 e que não representa a perspectiva dum universo alternativo com a diversidade com a que se configurava originalmente.

Mas se calhar a coisa não é tão grave como na perspectiva incompleta que se dá do sistema OÁSIS. O grande conglomerado virtual no que a humanidade estrutura a sua vida no mundo imaginado por Cline aparece reduzido a um enorme videojogo onde um grupo de adolescentes vive uma aventura que lhes dá importância. Assim, ainda que se percebe que o interesse por OÁSIS é global (há uma grande corporação tratando de fazer-se com o seu controlo), e aparece a escravização por dívidas que também é relevante no romance, muitos outros aspectos ficam escurecidos. Seguramente os espectadores que não tenham a referência literária acharam a sensação de que tudo não é mais que um enorme jogo de dimensão transcendente onde um grupo de adolescentes faz frente a uma grande empresa (sim, como nos Goonies). E possivelmente este é o ponto central, a grande divergência entre o produto literário e o cinematográfico. O romance de Cline era um canto cheio de cumplicidade e carinho a um género frequentemente sub-valorizado, mas com um peso cultural e social muito importante. A sua nostalgia volta os olhos aos 80 porque foi nos 80 quando os videojogos desenvolveram uma parte importante da sua cultura e estabeleceram muitos dos conceitos que ainda hoje manejamos. Porém, não deixa de representar também o jogador contemporâneo e a sociedade na que vive, uma sociedade interligada e com o protagonismo de grandes sistemas com ambições de totalidade, tão esperançosos como ameaçadores para a liberdade.

A nostalgia de Spielberg parece interpretada em termos exclusivamente pessoais. Brincadeiras que parecem tiradas (mais uma vez) dos Goonies, não sendo que já não estamos em 1985 e a imagem de uma criança de onze anos sendo afouto com uma moça já não causa mais impressão que a de um truque visto mil vezes. Também a forma de incorporar o filme de Kubrick (ausente na trama original e um tanto forçado no seu universo) parece falar muito de como o director vai por livre. E se calhar o ponto onde mais se nota é no que respeita aos videojogos, um universo ao que o o velho cineasta parece completamente alheio, como deixam ver as referências forçadas, com uma afluência caótica de personagens que não faz que esqueçamos as ausências clamorosas dos clássicos e onde a história dos primeiros programadores fica reduzida a uma história banal sobre os ovos de pascoa. É impossível pensar que Spielberg tomou a sério alguma vez o mundo dos videojogos ou que tratou de compreender os pontos importantes da obra original (a primeira medida de controlo sobre OÁSIS que se anuncia no final é muito eloquente neste sentido). Se o filme funciona como entretenimento é porque é um filme concebido para adolescentes, que na cabeça do director devem ser os únicos que jogam e manejam esse universo. Salvando quatro nerds como o próprio Cline, claro, que inexplicavelmente assina um produto para entreter rapazada que porém, reduz quase à caricatura a sua obra original.

 

O artigo Ready Player One: um jogo que não podemos ganhar apareceu primeiro no blogue Mal de Olho.

#Ciencia-Ficción#Cinema#maldeolho#Videoxogos

13/09/2017 by marioregueira

(galego) Adeus, Xohana

11/07/2017 by marioregueira

Oposições, santuários e violência

Moças de Georgia lendo a Faulkner no caloroso verão de 1971, Philip Bouchard (CC BY-NC-ND 2.0)

Li Santuário com dezasseis ou dezassete anos e possivelmente por isso não o esquecerei nunca. Sem reler nem uma só vez, tenho vívida a memória do seu estilo, do ambiente rural opressivo e da violência que descreve. Elementos que descobriria anos depois na narrativa galega da pós-guerra, no nosso caso articuladas para sortear a censura política e filtrar uma mensagem que não podia fazer-se de forma mais evidente. Descrever um universo mesto, onde as pessoas se impõem umas a outras pela força, e que resvala para o bizarro e o marginal, produzindo uma sensação de funda estranheza nas pessoas leitoras, serve para fazer um reflexo da sociedade norte-americana dos anos do cracke. A estratégia também servia para representar, em linhas similares, a sociedade do franquismo, coincidente em muito com esse retrato. Nos dois casos havia um pouso de denúncia social indireta, com um matiz necessário no caso do Estado espanhol, onde não havia possibilidade alguma de formular uma denúncia patente.

Pergunto-me como é possível que, anos depois, uma parte da sociedade crítica da Galiza apoie os protestos pela escolha de um texto desta obra para as probas das oposições. São consciente de que Faulkner pode representar uma opção particularmente difícil, que trabalhar com um hipotético estudantado sobre violência e sexualidade também é um exercício complexo, e que seguramente há motivos suficientes para indignar-se num processo de oposições que representa em sim mesmo uma pequena tortura. E porém o que indicam a maior parte dos protestos não é nada disso, senão que o texto escolhido descreve um acto de violência sexual.

Não partilho a maior parte das críticas que se fizeram neste sentido, nem sequer as de pessoas com as que habitualmente estou de acordo. Assim, partilho com Susana a necessidade de mover os marcos, da mesma forma que penso que os novos marcos não os constrói a escolha de um tribunal de oposições e que mais responsabilidade têm este tipo de reações no seu futuro, que deixam uma imagem mais confusa que politizada, também nos caminhos que as futuras autoras têm que percorrer.
Rejeitar um texto porque descreve uma violação, falar de “deleite” num ato descrito como forma de representar e denunciar uma violência social na que as mulheres são as primeiras vítimas, supõe confundir narração com apologia, algo que não se aguardaria de pessoas responsáveis da formação de outras. E por suposto mais ainda considerá-lo parte do cânone da cultura da violação, do que faz parte tanto como poderiam fazê-lo as violações que descrevem Margaret Atwood ou Eduardo Blanco Amor, que provavelmente não mereceriam nem uma mínima parte destas reações.

Toda uma vida de escrita para que te ponham a mirar um aparcamento – Visit Mississippi CC BY-ND 2.0

O acontecido não deixa de lembrar-me certos fenómenos que acontecem no ensino universitário ou na literatura galega. O rebaixamento do nível educativo para oferecê-lo à vontade do consumidor, que passa por evitar ao estudantado qualquer tipo de frustração ou conflito deste tipo, por exemplo, uma tendência à alça no contexto europeu. Pensar que pode haver superviventes da violência sexual entre as pessoas examinadas é relevante, sem dúvida, mas também abre o caminho a evitar outro tipo de textos a vítimas de outro tipo de violências e experiências traumáticas. Também a pressupor que uma pessoa, pelo feito de ser supervivente da violência sexual, fica eivada à hora de analisar os discursos que se realizam sobre ela, mesmo quando estes funcionam na sua contra ou destacam o seu papel nas relações de poder, colocando-se fora das dinâmicas habituais do patriarcado. Se algo fazemos desde a filologia é estudar discursos e sabemos (ou devêramos saber) como se constroem e que elementos empregam. E sem dúvida, onde não há conflito, não há discurso. Não se pode falar contra a violência desde a literatura sem mencionar e descrever a violência. Podem-se, isso sim, fazer panfletos.
Isto faz-me pensar também uma linha preocupante dentro da literatura galega contemporânea. A necessidade de estabelecer discursos unívocos e maniqueus, onde as pessoas boas são bonísimas e ideologicamente perfeitas e as más, más de telenovela. E onde qualquer alusão à zona escura do ser humano vai acompanhada de um rol de defesa onde a voz autorial deixa perfeitamente claro que condena o que ali (em geral assepticamente) conta. Uma forma de empobrecer o discurso e de renunciar a outras estratégias que não sejam mastigar minuciosamente ao leitorado ideias justas. Tão justas que mereceriam formulações literárias menos pobres que aquelas com as que habitualmente são tratadas. Depois virão as surpresas e as dificuldades para identificar o inimigo. Como me disse uma amiga minha, opositora de galego, sobre este tema:

– O que me amola é que todo mundo proteste pelo de Faulkner e ninguém diga nada de que em galego nos puseram um poema de Noriega Varela. Isso sim que é violência.

#Activismo e resistencia#Feminsmo#Literatura#Oposicións 2017#William Faulkner
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